Dados recentes mostram força do setor em SC e colocam descentralização, talentos e infraestrutura entre os próximos desafios.
Santa Catarina entrou em uma nova fase de expansão da economia de tecnologia. Dados recentes da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) mostram que o estado chegou a 34,2 mil empresas do setor em 2025, crescimento de 16,4% em apenas um ano, enquanto o faturamento alcançou R$ 47,9 bilhões. O segmento já representa 8% do Produto Interno Bruto (PIB) catarinense e colocou Santa Catarina na segunda posição nacional em geração de empregos formais em tecnologia. (ACATE)
O dado mais recente sobre Florianópolis reforça a dimensão dessa transformação: a capital concentra 21% do PIB municipal em atividades de tecnologia, além de 7,4 mil empresas e R$ 14 bilhões em faturamento anual. Mas a pergunta que começa a ganhar importância para Santa Catarina é outra: como fazer esse crescimento tecnológico chegar com mais força ao Vale do Itajaí, Norte, Oeste, Sul e Serra? A resposta passa por formação profissional, infraestrutura, crédito, inovação pública e integração entre os polos regionais.
Florianópolis lidera, mas tecnologia já forma uma rede catarinense
Florianópolis continua sendo o principal símbolo da economia tecnológica de Santa Catarina, mas os números estaduais mostram que o fenômeno não depende exclusivamente da capital. Segundo o Observatório ACATE 2026, o estado possui 34,2 mil empresas de tecnologia, e 42% delas têm menos de cinco anos de existência. Apenas em 2025 foram abertas mais de 4,8 mil empresas do setor, sinal de que a expansão ocorre também pela entrada constante de novos negócios. (ACATE)
A distribuição regional ajuda a entender essa transformação. A Grande Florianópolis concentra 11,3 mil empresas, seguida pelo Vale do Itajaí, com cerca de 8,9 mil, e pelo Norte catarinense, com 5,9 mil. O Sul aparece com aproximadamente 3,6 mil empresas, enquanto o Oeste reúne 3,4 mil e a Serra Catarinense registra 759. Embora exista uma concentração evidente na Grande Florianópolis, a presença de empresas em todas as mesorregiões mostra que a tecnologia já está integrada a diferentes estruturas econômicas do estado. (ACATE)
A diferença entre os polos, portanto, não significa ausência de inovação nas cidades do interior. Ela mostra que cada região parte de uma base econômica distinta e pode desenvolver especializações próprias, conectando tecnologia à indústria, ao agronegócio, à logística, à saúde, ao comércio e aos serviços. O próprio ecossistema catarinense já trabalha com polos regionais ligados à ACATE, incluindo iniciativas no Vale Europeu, Sul, Oeste, Alto Vale, Serra, Foz do Itajaí e Norte, além da Grande Florianópolis. (ACATE)
Esse desenho é importante para o morador porque uma economia digital forte não precisa significar apenas empregos em empresas tradicionais de software. Sistemas de automação utilizados por uma indústria de Joinville, soluções para o agronegócio no Oeste, plataformas desenvolvidas no Vale do Itajaí ou tecnologias aplicadas à logística em Itajaí também fazem parte dessa transformação. Quanto maior a capacidade de cada região transformar seus próprios problemas em oportunidades tecnológicas, menor tende a ser a dependência de um único polo.
O próximo desafio de SC é transformar crescimento em oportunidades regionais
O crescimento do setor também aumenta a pressão por profissionais qualificados. O UniSENAI, por exemplo, formou 187 profissionais no primeiro semestre de 2026 em cursos distribuídos por Joinville, Jaraguá do Sul, Chapecó, Blumenau, Florianópolis e Tubarão. Desse total, 144 concluíram graduações relacionadas diretamente à tecnologia, como Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Defesa Cibernética, enquanto outras formações atenderam áreas ligadas à automação, engenharia e produção. (FIESC)
A formação regional é estratégica porque o crescimento das empresas não acontece no mesmo ritmo da disponibilidade de mão de obra especializada. Se os novos negócios permanecerem concentrados em poucas cidades, profissionais de outras regiões podem precisar migrar para os grandes polos para encontrar oportunidades. Ao mesmo tempo, empresas do interior podem enfrentar dificuldades para contratar especialistas em desenvolvimento, inteligência artificial, segurança digital, dados e automação, justamente quando essas competências se tornam mais importantes para a competitividade.
Essa preocupação aparece também nas propostas apresentadas pela ACATE aos candidatos ao Governo de Santa Catarina para o ciclo eleitoral de 2026. A entidade defende, entre outros pontos, programas de formação de talentos em inteligência artificial e empreendedorismo, fortalecimento dos centros de inovação, apoio à internacionalização, digitalização de pequenas empresas e maior integração da Rede Catarinense de Centros de Inovação. (ACATE)
Para o cidadão, isso significa que políticas de tecnologia podem produzir efeitos muito além do setor de software. Uma pequena indústria que passa a utilizar automação pode aumentar produtividade; uma empresa rural pode adotar ferramentas digitais para gestão; uma prefeitura pode contratar soluções desenvolvidas localmente; e uma startup pode vender para outros estados ou países sem precisar transferir sua sede. O ganho econômico aparece justamente quando a tecnologia deixa de ser vista como um setor isolado e passa a funcionar como infraestrutura para as demais atividades.
O que pode definir a próxima etapa da tecnologia catarinense
A dimensão alcançada pelo setor faz com que infraestrutura, crédito e políticas públicas passem a ter peso ainda maior. Santa Catarina já reúne 102,2 mil empregos formais em tecnologia e faturamento de R$ 47,9 bilhões, segundo o Observatório ACATE 2026. A expansão das empresas também foi superior à média nacional, o que indica que o estado possui uma base empresarial suficientemente grande para sustentar novas iniciativas de inovação. (ACATE)
O desafio agora é transformar essa vantagem em crescimento mais distribuído. A ACATE colocou entre suas propostas para o estado a destinação de recursos da Fapesc para centros de inovação, incubadoras, empresas de tecnologia e digitalização de pequenos negócios, além de estímulos à internacionalização e atração de investimentos. A entidade também defende compras públicas de soluções tecnológicas catarinenses e o fortalecimento de instrumentos de crédito para empresas inovadoras. (ACATE)
Essa agenda interessa especialmente aos municípios que já possuem uma base industrial ou empresarial consolidada, mas ainda não alcançaram a mesma densidade tecnológica da Grande Florianópolis. O Vale do Itajaí e o Norte, por exemplo, aparecem entre os maiores polos empresariais do estado, enquanto Sul, Oeste e Serra apresentam espaço para ampliar sua participação. O crescimento mais rápido do Sul em número de empresas, de 22,8% em 2025, mostra que a expansão regional pode acontecer quando existe ambiente favorável para novos negócios. (ACATE)
Para Santa Catarina, a principal oportunidade está justamente em conectar esses diferentes ecossistemas. Florianópolis pode continuar como grande centro de startups e investimentos, enquanto Joinville, Blumenau, Chapecó, Itajaí, Criciúma, Lages e outros municípios podem aprofundar suas próprias vocações tecnológicas. A combinação entre universidades, indústria, centros de inovação, empresas tradicionais e startups pode criar uma rede menos concentrada e mais resistente às mudanças do mercado.
O resultado dessa estratégia pode ser percebido no cotidiano, mesmo por quem não trabalha diretamente com tecnologia. Mais empresas digitais significam novas possibilidades de emprego, serviços públicos mais eficientes, processos industriais mais produtivos e oportunidades para empreendedores venderem para mercados distantes. O crescimento recente mostra que Santa Catarina já possui escala; o próximo passo será decidir como transformar essa escala em desenvolvimento tecnológico distribuído pelo estado.
Fontes: ACATE — Observatório e dados recentes de tecnologia em Santa Catarina · ACATE — crescimento das empresas de tecnologia em SC · Rede de Inovação Florianópolis — Observatório 2026 · FIESC — formação de profissionais para a indústria catarinense