Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial à frente do Grupo Valore+, lida em diagnósticos organizacionais com uma distinção que raramente aparece em conversas sobre empreendedorismo: a linha entre coragem e imprudência não está no tamanho do risco assumido, mas na proporção entre o desafio e a capacidade real de enfrentá-lo.
Quando o impulso substituiu o preparo
Em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, o capítulo que trata de fracasso e castigo narra um episódio em que um desafio foi assumido sem que houvesse competência e preparo suficientes para enfrentá-lo. A reflexão que o próprio livro extrai desse episódio é direta: desafios exigem habilidade específica, e impulso emocional raramente substitui competência técnica quando os dois entram em conflito.
A honestidade de incluir esse tipo de episódio em um livro de memórias diz algo importante sobre como trajetórias longas são lidas por quem as viveu: não como sequência linear de acertos, mas como alternância de escolhas bem e mal calibradas, cujo valor está justamente na clareza sobre o que diferenciou as que funcionaram das que não funcionaram. Para Alfredo Moreira Filho, registrar esse tipo de episódio é parte do que transforma experiência em aprendizado transmissível.
A diferença entre risco calibrado e risco ignorado
Ousadia é assumir um risco que foi avaliado e cuja proporção com a capacidade disponível foi considerada aceitável. Imprudência é assumir o mesmo risco sem ter feito essa avaliação, ou tê-la feito de forma superficial por excesso de confiança no próprio julgamento ou por urgência que comprimiu o tempo de análise necessário.
Ambas as situações podem produzir o mesmo resultado externo, sucesso ou fracasso, o que torna difícil distingui-las apenas pelo desfecho. A diferença está no processo: quem foi ousado e fracassou tem repertório para entender o que deu errado. Quem foi imprudente e fracassou muitas vezes não sabe exatamente por quê, porque o problema estava na premissa, não na execução.
Por que empreendedores tendem a confundir os dois?
A cultura empreendedora celebra a disposição de agir apesar da incerteza, o que é genuinamente valioso, mas frequentemente confunde essa disposição com a capacidade de avaliar riscos de forma adequada, que é uma habilidade completamente separada. Alguém pode ser muito corajoso e muito ruim em avaliação de risco ao mesmo tempo, combinação que produz ação frequente e erros caros.
Alfredo Moreira Filho, com experiência tanto em engenharia agronômica quanto em gestão empresarial ao longo de décadas, reconhece esse padrão em organizações que confundem velocidade de decisão com qualidade de decisão, como se a rapidez em agir fosse evidência de competência em avaliar o que está sendo assumido.
O momento em que a oportunidade precisa ser recusada
Uma das habilidades menos celebradas no empreendedorismo é saber recusar uma oportunidade que parece boa, mas para a qual a empresa ou o profissional ainda não tem preparo adequado. A recusa não é covardia nem falta de ambição; é reconhecimento de que aceitar um desafio para o qual não se está preparado pode comprometer tanto o projeto quanto a reputação construída até aquele momento.
Empreendedores que desenvolvem essa habilidade tendem a ter trajetórias menos dramáticas, com menos oscilações extremas entre expansão acelerada e retração forçada, porque calibram o crescimento de acordo com a capacidade real de sustentar o que foi assumido.
A competência como condição do risco, não como seu substituto
Risco é inevitável em qualquer decisão relevante. A questão não é eliminar o risco, mas garantir que o nível de risco assumido seja proporcional ao nível de competência disponível para enfrentá-lo. Quando a competência cresce, o nível de risco que pode ser assumido com prudência também cresce, e o que era imprudência em um momento da trajetória pode se tornar ousadia legítima em outro.
Alfredo Moreira Filho, ao longo de uma trajetória que passou por funções técnicas, corporativas e empreendedoras em múltiplos contextos, construiu progressivamente a capacidade de calibrar essa proporção, processo que nenhum livro de gestão descreve com precisão porque depende de autoconhecimento acumulado em situações reais de pressão e consequência. A diferença entre ousadia e imprudência raramente é visível no momento da decisão, mas se torna muito clara no momento em que as consequências chegam.