No encerramento da International Pipeline Conference de setembro de 2012, em Calgary, Paulo Roberto Gomes Fernandes avaliava que a participação brasileira no principal fórum mundial de dutos estava muito aquém da capacidade técnica que o país já demonstrava possuir. A leitura feita naquele momento ia além do balanço de uma feira internacional. Tratava-se de um alerta estratégico sobre como a ausência institucional e empresarial poderia enfraquecer a posição do Brasil em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado.
A conferência, realizada no Calgary Telus Convention Centre, reuniu naquele ano os principais operadores, engenharias e formuladores de soluções do setor dutoviário. O crescimento do evento em relação às edições anteriores contrastava com a tímida presença brasileira, o que gerava preocupação justamente em um período de expansão da produção de petróleo e gás. A contradição era clara: enquanto o mercado global se preparava para novos projetos de grande escala, o Brasil reduzia sua visibilidade nos espaços onde essas decisões começavam a ser discutidas.
A participação internacional como fator estratégico
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, a baixa representatividade brasileira naquele evento não refletia falta de competência técnica, mas uma decisão equivocada de priorização. Empresas de diferentes países utilizavam a feira como plataforma para abrir mercados, firmar parcerias e posicionar suas tecnologias, enquanto o Brasil corria o risco de se fechar em si mesmo. Essa ausência comprometia não apenas negócios imediatos, mas a capacidade de influenciar agendas futuras.
A preocupação se tornava ainda mais relevante diante das novas rodadas de licitação previstas no país. O aumento da produção exigiria, inevitavelmente, expansão e modernização das malhas dutoviárias. Sem infraestrutura adequada, o escoamento de petróleo e gás tenderia a se tornar mais caro e menos eficiente, reduzindo competitividade e ampliando gargalos logísticos que já se mostravam evidentes naquele momento.
Reconhecimento técnico e o paradoxo brasileiro
Conforme analisava Paulo Roberto Gomes Fernandes, o paradoxo era evidente. A tecnologia brasileira apresentada no evento havia sido reconhecida internacionalmente por instituições técnicas de alto prestígio, mas esse reconhecimento não se convertia em adoção consistente no mercado interno. O contraste entre prestígio externo e subutilização doméstica revelava uma dificuldade estrutural do país em absorver, escalar e consolidar suas próprias inovações.

Esse descompasso reforçava a importância de buscar mercados externos não apenas como alternativa comercial, mas como estratégia de validação tecnológica. Ao conquistar espaço fora do Brasil, soluções desenvolvidas localmente ganhavam legitimidade adicional, inclusive para serem posteriormente incorporadas no próprio mercado nacional. A internacionalização funcionava como mecanismo de sobrevivência e fortalecimento técnico.
Internacionalização e grandes projetos no tabuleiro global
Na leitura de Paulo Roberto Gomes Fernandes, a decisão de estabelecer presença permanente nos Estados Unidos ainda durante a crise global de 2008 demonstrava que a internacionalização não deveria ser tratada como movimento oportunista, mas como projeto de longo prazo. A abertura de escritório em Houston simbolizava uma aposta clara na competitividade da engenharia brasileira e na capacidade de dialogar em pé de igualdade com os principais players do setor.
Esse movimento permitiu acesso direto a projetos de alta complexidade, como grandes gasodutos na América do Norte, além de ampliar o diálogo com mercados emergentes do Oriente Médio. Projetos como o Keystone evidenciavam que o mercado de dutos estava inserido em um contexto geopolítico sensível, no qual engenharia, regulação ambiental e pressões políticas caminham juntas.
Uma leitura de 2012 que permanece atual
A avaliação feita por Paulo Roberto Gomes Fernandes também apontava para um risco estrutural menos visível. A ausência de entidades formadoras de opinião e de grandes grupos nacionais em fóruns internacionais comprometia a capacidade do país de influenciar padrões técnicos e regulatórios que, mais tarde, acabariam sendo importados. Em 2026, essa leitura se confirma. Países que mantiveram presença constante nesses espaços conseguiram moldar regras e fortalecer suas cadeias produtivas.
Olhando em retrospecto, fincar a bandeira brasileira em eventos estratégicos não era gesto simbólico, mas decisão estrutural. A tecnologia apresentada no Canadá em 2012 abriu portas porque foi acompanhada de presença, discurso técnico consistente e visão de longo prazo. A lição permanece clara: o protagonismo no setor de dutos depende de ocupar, de forma contínua, os espaços onde o futuro da infraestrutura energética é debatido e decidido.
Autor: Muntt Omarzo