Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor: entenda a disputa comercial

Diego Rodríguez Velázquez
Diego Rodríguez Velázquez Política
6 Min de leitura
Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor: entenda a disputa comercial

Medida do governo americano passou a valer em 22 de julho e levou o Brasil a acionar a OMC e criar linhas de crédito de socorro à indústria.

Uma nova etapa da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos começou nesta semana. O Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) formalizou, na madrugada de 16 de julho, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros exportados ao mercado americano, com vigência a partir do dia 22 (Conjur). A decisão é resultado de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, aberta em julho de 2025, que aponta o Brasil como adotante de práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses americanos, entre elas o tratamento dado ao comércio digital, aos serviços de pagamento eletrônico como o Pix e à proteção de propriedade intelectual.

Como começou a disputa comercial entre Brasil e EUA

A investigação que resultou na nova tarifa não nasceu isolada. Ela é uma continuação de um processo iniciado ainda em 2025, quando o governo Trump chegou a cogitar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, proposta que depois foi reduzida e parcialmente adiada após negociações e isenções para setores como aeronaves civis, energia, suco de laranja, ferro-gusa, metais preciosos, celulose e fertilizantes. Àquela época, a Casa Branca também condicionava publicamente a flexibilização das tarifas ao desfecho do processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, algo que o governo brasileiro sempre rejeitou como critério para uma negociação comercial (FatoNews).

Agora, com a tarifa de 25% em vigor desde o dia 22 de julho, especialistas ouvidos por veículos jurídicos avaliam que o caso brasileiro ganhou um peso simbólico maior: ele pode servir de modelo para futuras sanções comerciais dos EUA contra outros países que também sejam alvo da Seção 301. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou publicamente a nova tarifa como “ilegais” e “arbitrárias”, reforçando que o Brasil buscaria respostas institucionais em vez de uma escalada unilateral de retaliações. Fatonews

As medidas anunciadas pelo governo brasileiro

Como resposta, o governo federal decidiu recorrer a três frentes simultâneas. A primeira é a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/2025), instrumento jurídico criado justamente para permitir que o Brasil responda de forma equivalente a medidas comerciais unilaterais de outros países. A segunda é o acionamento do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), caminho mais lento, porém com respaldo multilateral. A terceira é a atualização do Plano Brasil Soberano, por meio da Medida Provisória 1.345/2026, que prevê linhas de crédito financiadas pelo BNDES para proteger setores produtivos mais expostos ao tarifaço (Conjur).

Paralelamente, a ApexBrasil lançou um novo pacote de apoio a exportadores, com foco em ajudar empresas a diversificar destinos de venda e reduzir a dependência do mercado americano. O governo também tem usado dados econômicos recentes para sustentar o discurso de que o país resiste bem à pressão externa: o setor de serviços acumulou alta de 1,9% entre janeiro e maio deste ano, e a safra de grãos de 2025-2026 deve chegar a 360 milhões de toneladas, números citados pelo próprio ministério das Relações Exteriores em pronunciamento à imprensa antes da tarifa entrar em vigor.

Os riscos de uma escalada e o que vem a seguir

Apesar do arsenal jurídico disponível, especialistas consultados por publicações especializadas alertam que a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica carrega um risco real de escalada: se o Brasil impuser contramedidas equivalentes, os EUA podem responder com novas sanções, criando um ciclo difícil de interromper por via diplomática. É por isso que o governo brasileiro tem preferido, até agora, combinar a ameaça de reciprocidade com o caminho mais formal da OMC, que costuma ser mais demorado, mas reduz o risco de um confronto bilateral direto.

O episódio também reacende um debate mais amplo sobre a relação entre Brasília e Washington em um ano eleitoral nos dois países. Em dezembro de 2025, os Estados Unidos já haviam retirado sanções aplicadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, movimento que sinalizou uma aproximação pontual entre Lula e Trump após uma conversa telefônica entre os dois líderes (CBS News). A nova tarifa de julho mostra, porém, que a disputa comercial segue seu próprio ritmo, independentemente dos avanços pontuais em outras frentes da relação bilateral.

O impacto prático da tarifa de 25% ainda deve ser sentido nos próximos meses, à medida que exportadores brasileiros ajustam contratos e buscam novos mercados. Para o consumidor final, o efeito mais provável é indireto: setores exportadores mais afetados podem repassar custos ou reduzir produção voltada ao mercado interno. O desfecho da disputa, seja por meio da OMC, seja por uma nova rodada de negociação direta entre os governos, deve continuar sendo acompanhado de perto ao longo do segundo semestre de 2026.

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *